quinta-feira, 5 de novembro de 2015

DIA NACIONAL DA CULTURA

Mtº Marum Alexander

Hoje se comemora, em todo o Brasil, o Dia Nacional da Cultura.

O Dia Nacional da Cultura foi instituído por meio da Lei Federal nº 5.579, de 19 de maio de 1970, e celebra o nascimento de um dos mais importantes personagens da História do Brasil: Rui Barbosa, intelectual, jurista, político e jornalista, que nasceu em 5 de novembro de 1849. Como presidente da Academia Ubaense de Letras e como homem sempre voltado para as coisas da arte e da cultura, não posso me furtar a discorrer um pouco sobre este tema tão abrangente.

O binômio “arte-cultura” tem sido muitas vezes menosprezado pelo povo; e este tende a considerar a arte como um luxo e não como uma forma pura de manifestação do espírito criador de cada um, com sua sensibilidade própria e sua maneira característica de transmiti-la. A arte, na sua plenitude, busca a cultura como fim último.

Não considerada, entretanto, como um problema prioritário até há pouco tempo atrás, a cultura ficou bastante sacrificada em nosso país. Assim sendo, as nossas realizações artístico-culturais, com suas necessidades financeiras, mercado restrito, carência de mão-de-obra especializada, etc., vêm sendo, cada vez mais, sacrificadas pela criação entre nós de um círculo vicioso e constante: ou a permanência de nosso artista em condições de precária sobrevivência, ou o seu êxodo para outras terras, desfalcando culturalmente os nossos meios particularmente o de Minas Gerais, que é tido e havido como o maior manancial do país nesta área específica.

Dessa assertiva incontestável uma conclusão pode-se tirar: é preciso concentrar todos os esforços na aculturação da criança e do jovem brasileiros, pois neles é que está a base de todo o entendimento, sedimentação e difusão de uma verdadeira vida cultural futura. Em todos os países do mundo a criança é, antes de tudo, a preocupação maior de qualquer governo, porque nela devem, de fato, concentrar-se todos os esforços culturais e recreativos para transformá-la num futuro cidadão da Pátria, tranqüilo, ordenado, alegre e cioso, quando se tratar do dever maior da missão comum de servir à Nação, de contribuir, em todos os campos da cultura e da ciência, para o seu desenvolvimento, sua grandeza e sua união.

Já se tornou um axioma popular dizer-se que ‘com o sorriso de uma criança se constrói a felicidade do homem de amanhã’. No mundo de hoje, em que a lógica cada vez mais vai perdendo os seus direitos, surgiu, como profunda verdade, um sentimento novo: a preocupação da juventude com as coisas de sua época. O seu despertar, voltado para as riquezas arquitetônicas, sociais e culturais, pode ser considerado também como um autêntico nacionalismo.

Explorar, congregar, valorizar e difundir o potencial da juventude brasileira é, e será sempre, uma arte delicada e minuciosa, que muitos não conseguem realmente compreender.

A facilidade de transporte no mundo atual praticamente aboliu as fronteiras entre os homens de todas as raças. As viagens incessantes dos grandes mestres, as migrações dos criadores e teóricos que acompanham até mesmo os seus protetores em todas as direções, a emulação que se estabelece entre as diferentes nações, rivais em riqueza artística, cultural, fabril, cientifica ou arquitetônica, beneficiam o mundo com uma esplêndida descentralização.

Como resultado de estarem pondo em comum as suas aquisições, invenções e descobertas, de compararem as suas técnicas e de divulgarem os seus métodos, os homens – servindo de exemplo aos jovens – caminham para dar à sua linguagem um caráter de acentuada universalidade. Mais uma vez se verifica, assim, a permanência da lei que submete o gênio criador à servidão da matéria.

Assim é que também o Brasil moderno é um Brasil de jovens. Estamos entrando numa nova era em que os valores antigos são substituídos pelos novos, na busca de uma sociedade ideal. E esta sociedade se delineia cada vez mais, formada de elementos atuantes, cheios de vida. Eles estão aí, tomando conta de tudo com seu ar aparentemente desleixado, com suas roupas coloridas... As correntes de opiniões se formam para julgá-los: muitos condenam, muitos absolvem. E nós, que tomamos uma posição de cultura no contexto, como ficamos? Não, não é esta a sua verdadeira imagem, pois é muito simples verificar-se que, debaixo dessa enganosa postura, há muita estória para ser contada e, principalmente, muita coisa para ser imitada.

É como disse Pascal: “Toda vida humana não é mais que uma imagem da vida da humanidade inteira”. Em face disto, estaremos sempre lançando um apelo à nossa gente: cultivar e desenvolver cada vez mais a educação da criança brasileira, pelo exercício constante de todas as suas faculdades, a fim de torná-la mais apta para a vida, porque nela se resumem todas as esperanças futuras de nosso País.

No entanto, nunca é demais lembrar que a educação deve pretender formar a criança de uma maneira determinada. Se o fim da educação é distinto, compreende-se que os princípios pedagógicos possam variar; e ainda quando a finalidade fosse a mesma, os princípios da educação também poderiam ser distintos, se a época, a raça, o meio social e o caráter fossem diversos. E sabe-se também que no mesmo País e na mesma época os procedimentos educativos variam segundo se queira formar um indivíduo, desde a infância, capaz numa especialidade ou em outra.

Em todas as etapas da educação, entretanto, o ser humano necessita de sua inteligência, de sua vontade, de seu sentimento e de sua parte corporal; pois não se deve esquecer que a educação deve ser completa e simultânea em todos os aspectos, conjuntamente com a parte física. Não somente pela influência mútua que têm, como também porque estas separações científicas se referem a uma individualidade indivisível. Estamos todos de acordo em que a faculdade criativa é uma parte da educação, que dá à criança e ao jovem o poder adicional da sensibilidade — e que esta forma de cultura constitui parte legítima do trabalho escolar.

Por isso, as razões que geralmente se citam em favor da cultura abrangente, como parte da educação comum, são, principalmente, a de que ela funciona como matéria agradável para o descanso de outros estudos, como conhecimento que deve formar parte da educação geral; como meio de cultura estética, preventivo de um mau gosto generalizado; e, ainda, para descobrir nela valores ou disposições especiais que, no caso, devem ser estimuladas pelos pais e pelos mestres.

Como matéria agradável para o descanso de outros estudos (se é verdade que um trabalho serve de descanso a outro), a cultura abrangente, por sua natureza, será mais eficaz neste sentido que outra matéria qualquer.

Os esforços da cultura e da arte para descobrir a novas realidades sociais foram temporariamente inibidos pela burocracia; e mesmo hoje esses esforços estão sujeitos a sofrer eventual oposição burocrática.

A natureza problemática do estágio de transição em que vivemos, entretanto, tem causas mais profundas do que a simples interferência burocrática. A tarefa decisiva da cultura e da arte contemporâneas – a tarefa de representar a nova realidade através de meios de expressão adequados a ela – está intimamente ligada a outro problema do nosso tempo: o ingresso de milhões de pessoas na vida cultural.

Essa atitude de levar a arte a sério, o caminho que vai da arte ao homem – o caminho para uma arte intimamente vinculada ao gênero humano – não é o da distância mais curta entre um alto posto e uma organização menor ou maior. É um caminho necessariamente longo, que atravessa diversas e variadas experiências dos artistas e implica uma ampla e generosa educação gradual dos homens.

A própria formação cultural do mundo moderno passa por uma transformação radical, porque vivemos num outro tempo que exige outros caminhos. Não nos é permitido ignorar certas coisas. E o intelecto, por ser só nosso e pertencer sempre ao nosso tempo, nos induz a ir ao âmago das coisas para sondar o porquê e o para quê de tudo.

Daí Goethe ter dito que: “Aquilo que não compreendemos não nos pertence”.

Portanto, cultura é tudo isto: é saber, é conhecer, é desenvolver-se; é elevar-se, moral e espiritualmente; é compreender, é amar e até mesmo dedicar-se a uma ou mais manifestações da arte.

Cultura é o ato, o efeito ou o modo de cultivar algo e cultivar-se a si mesmo; é o desenvolvimento intelectual e físico do indivíduo. Sociologicamente, cultura é ainda o sistema de atitudes e modos de agir, em função dos costumes, das instituições, dos valores espirituais e materiais de uma sociedade. No sentido restrito, cultura é um desenvolvimento do estado intelectual, artístico ou científico, através do qual se revela, com um sentido humano, um esforço coletivo pela libertação do espírito.

Antes e acima de tudo, porém, o homem chamado ‘culto’ não é aquele que mais sabe ou mais se dedica a um determinado estudo – e sim aquele que é civilizado; o que procura adquirir conhecimentos abrangentes; o que respeita a individualidade alheia; o que transcende a mediocridade do mundo; o que ama realmente o próximo; o que contribui para um crescimento generalizado do meio em que vive e convive; o que é manso de espírito; o que releva as injustiças; o que perdoa aos incautos; o que dignifica o bem honesto; o que refreia e dosa as paixões intensificadas da alma; o que distribui pacificamente o que aprendeu; o que se porta com arrojo, mas com nobreza; o que não destrói; o que não prevarica; o que se cala nas horas certas; o que busca a união e a harmonia do todo universal; o que teme a Deus e verdadeiramente aplica os Seus mandamentos divinos; o que não se apega somente à sua mísera e curta existência terrena — numa palavra, o que concretiza ideais, pessoais ou coletivos, construindo algo de útil, agradável e duradouro para a posteridade e deixando marcas indeléveis no tempo, na memória e no coração da humanidade que lhe sobrevive.

“Todo homem”, diz Aristóteles, “é naturalmente desejoso de saber”; isto é, o desejo de saber é inato; esse desejo já se manifesta na criança pelos ‘por quês?’ e os ‘como?’ que ela não cessa de formular. É ele, o desejo de saber, o princípio das ciências, cujo fim primeiro não é o de fornecer ao homem os meios de agir sobre a natureza, mas, inicialmente, o de satisfazer sua natural curiosidade.

Se o desejo de saber é assim essencial ao homem, deve ser universal no tempo e no espaço. E é isto exatamente o que nos ensina a História. Não há povo, por mais atrasado que seja, em que não se manifeste nele este pendor natural do espírito, que é, por sua vez, tão antigo quanto a humanidade.

A necessidade de saber gera, de início, os chamados conhecimentos empíricos, que são o fruto do ato espontâneo do espírito, mas permanecem sendo conhecimentos imperfeitos, pois que lhes falta por vezes a objetividade e se formam ao acaso, por generalização prematura, sem ordem nem método.

Tais são, por exemplo, as receitas meteorológicas do camponês, os provérbios e as máximas que resumem as observações correntes sobre o homem e suas paixões, etc.

Estes conhecimentos empíricos não devem ser desprezados. Ao contrário: eles se constituem no primeiro degrau da ciência, que só faz por aperfeiçoar os processos que o empirismo emprega para adquirir seus conhecimentos.

O conhecimento científico visa a substituir o empirismo por conhecimentos certos, gerais e metódicos, isto é, por verdades válidas para todos os casos, em todos os tempos e lugares – verdades estas ligadas entre si por suas causas e princípios.

Cultura é, portanto, a forma universal e eterna da sabedoria, uma vez que, considerando as causas mais altas do real e os princípios absolutamente primeiros de todo o saber, ela domina de certa maneira o concreto e o abstrato, o real e o irreal, o prazer e a dor, o empirismo e a praticidade, o bem-fazer e o bem-agir, o espírito e a matéria, o ato criativo e a ação mecânica, a tudo unificando e a tudo dirigindo para seu supremo fim comum.

Mas este conjunto de sabedorias se, por um lado, obedece a seu próprio dinamismo, aspira, por outro, a ultrapassar-se a si mesmo; e, desse ponto de vista, experimenta um sentimento de frustração. Porque, apesar de toda a sua força propulsora, a cultura que o saber nos traz dependerá sempre de uma força maior, de um efeito mais pleno, de uma luz superabundante e supereminente a nós apenas legada por Deus, através do que comumente chamamos de “talento”. E o talento, como fruto de uma revelação divina, é propriamente aquele que, permanecendo constante e irrestritamente submetido ao critério da evidência racional, admite e evoca esse conforto subjetivo da inteligência que resulta da virtude infusa da fé e, confirmando de cima as certezas racionais fundamentais, confere-nos uma luz e uma força particulares, transmitindo-nos a emoção necessária e iluminando, através dos séculos e em benefício da razão, todos os campos do saber da humanidade.

Ubá, MG, 05 de novembro de 2015.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O homem e sua eterna busca pela felicidade - Pensamentos semióticos sobre o filme “Her”, Ela

Ontem em uma de minhas turmas de semiótica passei o filme “Her” (Ela) para a turma. É a segunda vez que trabalho com essa obra em sala e a experiência foi novamente maravilhosa!

As discussões sobre o homem pós-moderno, suas angústias, seus anseios, desafios são assuntos abordados no filme. A relação do homem com a máquina e a tentativa desesperada pela busca do amor, da satisfação pessoal aparecem como algo a ser perseguido. Mas o que seria a pessoa ideal para um relacionamento amoroso?

Em “Ela”, a discussão perpassa por uma tentativa idealizada de alcançar o amor perfeito. Mas essa tentativa se frustra a partir do momento em que o personagem aposta tudo em um relacionamento com algo ou alguém que só existe na mente dele, ou no que ele projetou como sendo a mulher ideal. A semiose se dá no momento em que ele cria o signo do sistema operacional e dá novos significados a alguns já existentes.

Porém, o ser humano, como mostrado na obra de ficção, só tem a noção de que até as máquinas são imperfeitas no momento em que se vê “abandonado” por sua criação (o sistema operacional Samantha).

O homem descobre que a busca incessante pela felicidade muitas vezes é frustrada porque ele quer o impossível, o improvável. Não se pode juntar tudo aquilo que projetamos como sendo qualidades em uma única pessoa. As pessoas possuem defeitos, falham, têm opiniões diferentes. E é isso que as fazem seres humanos.

Há muitos “sistemas operacionais” perambulando por aí, pessoas que que criam verdades, manipulam outras e essas passam a acreditar que algumas afirmações são verdadeiras porque a forma como são passadas é muito pensada, trabalhada para que se tornem incontestáveis. É assim no mundo da política, em muitos discursos religiosos e em outros setores da vida em sociedade.

Vale a reflexão para que possamos ver o que estamos fazendo com as nossas vidas, com o nosso tempo e com as verdades que estamos tomando para nós.

Sinopse: Dirigido por Spike Jonze e protagonizado por Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson, a obra estreou em 2014 e conta a história de um escritor de Los Angeles, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um homem complexo trabalha escrevendo cartas pessoais para outras pessoas. Ele termina seu casamento e cria um sistema operacional chamado “Samantha”, uma voz feminina. A amizade entre os dois se transforma em romance.

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Spike Jonze Título Original: Her Gênero: Drama, Romance Duração: 2h 06min Ano de lançamento: 2014 Classificação etária: 14 Anos

quarta-feira, 17 de junho de 2015

De volta

Após dois anos de afastamento deste espaço, retorno com muita vontade de compartilhar com vocês minhas reflexões sobre comunicação, semiótica, design e "causos" que acontecem em minha querida Minas Gerais. Fui ali ser mãe, trabalhar muito, ter outras responsabilidades, assumir muuuuuitas outras... Aprendi bastante por outros ares. Agora volto um pouco mais sensata, mais serena. Volto mãe da linda Isabela, esposa e ainda jornalista, observadora, professora apaixonada e mais e mais...Vamos trocar experiências, comentar o que vivemos e lemos por aí. Conto com vocês para me ajudar.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Artigo sobre semiótica e design

Publiquei um artigo sobre as ferramentas da semiótica que podem ser aplicadas ao design. Quem quiser conferir, o link é esse: https://docs.google.com/file/d/0B_Ji1FvTj535S09fVnl2T0NLb1k/edit.

III Prêmio de Fotografia – Ciência e Arte 2013

Estão abertas as inscrições para o III Prêmio de Fotografia – Ciência e Arte 2013. O prêmio foi criado em 2011, nas comemorações dos 60 anos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e tem como objetivo principal fomentar a produção de imagens com a temática de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O prêmio será concedido em duas categorias e está voltado para estudantes de graduação, pós – graduação, docentes, pesquisadores brasileiros e estrangeiros com visto permanente no país. Os candidatos devem ser maiores de 18 anos.

Além da premiação em dinheiro (1º lugar: R$8.000,00; 2º lugar: R$5.000,00; 3º lugar: R$2.000,00), o CNPq concederá ao primeiro colocado de cada categoria, direito a passagem aérea e hospedagem para expor suas imagens e receber a premiação na Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que acontecerá em julho do ano que vem.

As inscrições podem ser realizadas até às 18h do dia 30 de agosto e os participantes deverão se inscrever em apenas uma categoria: (1) Imagens produzidas por câmeras fotográficas em ambiente silvestre e antrópico ou (2) Imagens produzidas por instrumentos especiais (ópticos, eletromagnéticos, eletrônicos.

Sistema Financiar: www.financiar.org.br

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Manga Ubá - um ícone, um índice ou um símbolo?

Hoje quando penso em manga Ubá, logo me lembro da infância,do cheirinho do doce sendo remexido no tacho de cobre na casa da Hebe, uma vizinha de minha mãe. Lembro-me também da sujeira que eu e meus irmãos fazíamos quando passávamos a tarde inteira nos quintais dos vizinhos saboreando a fruta.

É por isso que resolvi utilizar a manga Ubá, um símbolo da Cidade Carinho, para tentar explicar alguns conceitos criados por Charles Sanders Peirce PEIRCE na Semiótica.

Peirce entendia o signo como fenômeno, qualquer coisa que aparece à mente, seja ela meramente sonhada, imaginada, concebida, vislumbrada, alucinada. Um devaneio... um cheiro e que, por fim, pode ser até mesmo representada. "Seria alguma coisa que representa outra coisa".

Assim, quando escrevo o nome da fruta manga, cada um de vocês pode se lembrar de algo. Para muitos ubaenses que moram fora da cidade, a fruta pode representar boas lembranças. Para quem ainda vive aqui: um orgulho de poder ter o privilégio de ter acesso fácil a essa delícia.

Para Peirce, a trilogia do pensamento seria uma primeira ideia do que pode ser a manga. Depois viriam as possibilidades de significado para a mesma. E a terceira, seria a fruta representada e somada a todas as lembranças que ela pode estabelecer com o seu contexto.

Observe que, quando chegamos ao terceiro ponto, fechamos um ciclo. Não é qualquer manga que valeria nesse raciocínio e sim, a Manga Ubá.

Daí surgem alguns conceitos como o de ícone, índice e símbolo.

O ícone seria o objeto – representado por uma cópia similar ou não similar a eles. Uma fotografia da manga Ubá, por exemplo.

O índice seria um signo que é um indicador, o cheiro da manga por exemplo.

O símbolo já seria o significado da manga somado ao que ela representa para os ubaenses: a manga como símbolo da cidade de Ubá.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Oito décadas do nosso “menino sorriso”

Texto escrito em 3 de maio de 2011

Entre um relatório e outro, atendimento a aluno, conversas ao telefone, hoje passei por momentos de reflexão sobre a vida. Ou melhor, sobre como levar a vida. Fiquei refletindo sobre o decorrer dos anos, sobre como as pessoas valorizam ou desvalorizam cada momento de sua existência. E quem me fez pensar em tudo isso foi meu pai. Hoje o velho completa 80 anos de vida. Já nesta quinta linha, em minha sala no trabalho, tenho que segurar minhas lágrimas de emoção ao me lembrar de alguns detalhes da convivência com ele.

Sou uma privilegiada mesmo. Agradeço a cada dia pelo prazer de compartilhar as minhas alegrias, as minhas angústias, os meus pensamentos com esse homem que me passa diariamente uma lição de garra e alegria de viver. O menino “oitentão” não gosta de falar sobre idade. Nem mesmo permite que comemoremos a data com a pompa e circunstância que merece. É discreto. Prefere ficar quieto neste dia e que ninguém saiba, além da família.

Para ele, hoje é um dia normal como tantos outros. Acordou cedinho, buscou o pão para a minha mãe. Fez o café como de costume e foi trabalhar. Isso mesmo. O velho ainda trabalha. E diz que isso é saúde. Alguém duvida? Trabalha mais de oito horas por dia, dirige na cidade e na estrada, joga bocha todo final de semana no clube Mangueiras. E aí de quem demonstra cansaço perto dele! Fica bravo.

O menino de Laranjal (MG) ainda conserva o sorriso largo e sincero de quem já morou na Fazenda do Cristal. Ele tirava o leite, tratava do gado, subia e descia morro e ajudava aos irmãos na labuta.

O meu velho perdeu o seu pai ainda criança. Aos oito anos teve que aprender a lidar com a perda e a responsabilidade cresceu. Dez irmãos para a minha avó Maria tratar na roça. As dificuldades foram muitas. O jeito era ir para a Cidade Grande tentar a vida.

E assim o meu paizão fez. Foi para o Rio de Janeiro ainda mocinho para morar com o meu saudoso tio Dejair, já casado na época. Lá arranjou emprego, fez cursos e aprendeu o ofício da refrigeração. Lá se passaram 30 anos. Uma vida. O menino da roça aprendeu com os desafios da Cidade Maravilhosa! As décadas eram de 50 e 60. Outra realidade! Um Rio de Janeiro da Bossa Nova, dos boêmios da Lapa e também da Praça Sans Penha, na Tijuca, onde ele freqüentava.

Mas nunca foi boêmio. Pelo contrário, sempre foi homem do dia. Gosta de dormir cedo e adepto do ditado de que “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Não me lembro de ter presenciado meu pai passar das seis da manhã na cama, mesmo nos finais de semana e feriados.

Certa vez meus tios Dejair e Beatriz receberam a notícia de que receberiam a visita de duas primas de Minas: uma de Ubá e outra de Cataguases. Meu pai ainda morava na casa deles nesta época. Apesar do parentesco, ele não as conhecia. Dessa visita começou um namoro com minha mãe. Desse namoro veio o casamento cinco anos depois. E a vinda deles para Ubá um ano depois de casados.

Eles vieram para Ubá na década de 60 e nunca mais saíram daqui. Meu pai aprendeu a amar essa cidade em função do amor dele por minha mãe. Hoje ele é muito mais conhecido do que ela por aqui. Quem não conhece do seu Almir da geladeira? Apesar do pouco estudo, ele pôde nos dar a oportunidade de estudar e criou nossa família dignamente. Hoje tentamos nos espelhar em seu caráter. Somos três filhos e duas netas lindas.

Continuamos aprendendo com ele a cada dia. Ele nos estimula a dar valor a cada dia de nossas vidas. Sua saúde de ferro, seu vigor, sua vontade de sempre estar bem informado e sua alegria a cada gol do Flamengo nos fazem sentir que vale a pena aproveitar cada instante de nossa existência sem mágoas, sem rancor.

O importante é ter ao nosso lado quem amamos e valorizarmos o nosso trabalho e respeitar as pessoas que nos rodeiam.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Minha tia Alzira

Ao entrarmos pela porta da cozinha, fomos recebidos com um sorriso no canto da boca, meio tímido, o olhar baixo. Tia Alzira tinha acabado de preparar um café. O coador de pano já meio descosturado descansava em cima da pia de barro. Logo nos perguntou se já havíamos almoçado. Respondemos que não, para nós, até uma resposta óbvia, uma vez que ainda não passava das 9 horas da manhã. Porém, para ela nem tanto. Na roça a vida começa cedo. Tia Alzira já havia preparado o almoço e arrumado a cozinha. O filho do coração tinha voltado para a lida.

Hoje ela tem 89 anos, nasceu na zona rural de Laranjal, Minas Gerais, e de lá nunca saiu. De uma família de 10 irmãos, ela foi a única que não se casou. Desde muito menina trabalhava na casa de uma família. Ali viu os filhos da patroa cresceram e, quando os patrões faleceram, por ali continuou morando com um dos “meninos” que criou.

Confesso que nesta visita rápida de domingo, não desgrudei os olhos de cada detalhe daquela casa. Já na entrada uma varanda com água da mina que fica jorrando o dia todo. Ao lado dela, uma vassoura feita de folhas de plantas ficava encostada na parede. Perto da porta da cozinha um enorme fogão a lenha. A princípio, pensei que ele tivesse sido pintado de vermelho, mas depois meu pai me explicou todo o processo que o faz ficar daquele jeito.

No corredor que dava acesso aos quartos a quantidade de quadros de santos me chamou a atenção. Além disso, a geladeira azul da marca Frigidaire me fez lembrar a casa de minha avó na década de oitenta. Minha tia ainda conservava dezenas de ímãs coloridos nela.

Parecia que eu estava num local mágico. A simplicidade das coisas me fazia pensar no quanto

é possível ser feliz e com tão pouco. A minha vontade era sair fotografando tudo como se não estivesse acreditando no que via. Nos dias de hoje, parecia algo muito distante duas pessoas morarem um local em que a comunicação ainda chega através do rádio e quando alguém vai visitá-los. Na rocinha eles plantam de quase tudo. Compram apenas o indispensável.

Por alguns minutos senti que o tempo parou. Percebi que as horas naquele lugar têm uma contagem diferente daquelas com as quais estamos acostumados. Eu precisava registrar aquele momento e resolvi pedir ao meu irmão para fazer uma foto do meu pai e da minha tia dentro da casa. Dois irmãos, duas realidades completamente diferentes, apesar da mesma origem. Minha tia ficou meio apreensiva. Disse que não gosta de tirar fotos. Tem vergonha, mas aceitou o pedido da sobrinha.

Logo tivemos que partir para outras visitas. O tempo era curto. Apesar dos poucos minutos, nunca mais me esqueci daqueles momentos que me fizeram refletir sobre a vida. Espero voltar outras vezes. Muita saúde, tia Alzira. Até outro dia.